terça-feira, 16 de maio de 2017

Nos conhecemos, não nos reconhecemos.

 
Não sei você, mas a necessidade de encaixe perfeito me atormenta diariamente. É o desejo de encaixar-se na vida de outro alguém; É a vontade insana de que as almas se conversem mais do que os lábios; É o anseio descontrolado de sentir-se pertencente ao desconhecido; E, quando me refiro ao desconhecido é no sentido real da palavra.
  Nestes últimos meses eu custei a acreditar em uma das frases que mais ouvi: "Tem gente que passa a vida inteira sem conhecer de fato quem está ao lado". Teimei, bati o pé, custei em acreditar que isto seria possível. Como pode um ser humano, em sã consciência, esconder-se por tanto tempo? Como resgatar a confiança depois de entender que tudo aquilo que você acreditava ser real no fim das contas não era? Como podemos conviver diariamente, alimentando incessantemente tudo aquilo que definimos ser nosso quando na verdade, nem dono tem? 
  Pra ficar mais claro esta relação de ser dono do quê e de quem, permita-me explicar algo... Em uma conversa com um amigo meu, naturalmente tentando me convencer de que tais frustrações fazem parte da vida, ele me incentivou a uma reflexão. Cada um de nós possuímos um caminho, uma verdade. Nossas verdades sempre geram conflitos quando deparadas a verdade dos outros. A razão de cada um sempre irá se sobressair. Os motivos empregados por cada um de nós para as mudanças daquilo que tornamos a ser, na maioria das vezes, fará sentido em nossa cabeça. Para o outro, talvez não. A verdade do outro não lhe permite aceitar as nossas razões. Baseado nisto, quem está certo? Ninguém. Definitivamente, ninguém. Isto se dá ao fato de que nem as nossas próprias verdades são confiáveis. Em algum momento de nossas vidas perdemos o domínio sobre nós mesmos. Nos conhecemos, não nos reconhecemos.
 Ora, mas qual o sentido de moldarmos nossas vidas apoiado em nossas verdades se elas não são confiáveis? Aliás, o que faz de nossas verdades não ser confiáveis? 
 Quando éramos pequenos, pensávamos de uma forma. Quando crescemos, passamos a pensar de outra. Hoje, certamente, você chama de maturidade tudo aquilo que você aprendeu com experiências - vividas ou criadas - e o resultado disto tornou-se a sua verdade. Mas ela é mutável conforme o tempo. Você nunca será o que você é hoje. 
  É claro que a relação de personalidade e caráter deve ser levado em consideração. Ainda que no decorrer de nossas vidas modificamos incessavelmente nosso caráter (uns progridem, outros não), temos uma personalidade única. Mas, nem mesmo ela ignora o fato de que seremos outro alguém no futuro. 
  Aí que mora o problema.
  Dedicamos nossas vidas, muitas vezes, fundamentado em tudo aquilo que conhecemos dos outros. De repente, tudo muda. Tudo se transforma. As pessoas apropriam-se de suas novas verdades. Seria a lei da vida? Seria uma escolha ou simplesmente destino? Não me arrisco em lhe responder. Só me arrisco em dizer que mudanças, quando não são para o bem, são drásticas. Por vezes, irreversíveis, é bem verdade. Isto porquê quando mudamos agradamos uns, frustramos outros. A pergunta é: as suas mudanças estão frustrando pessoas que se preocupam diariamente em não frustrar a você? 
  As consequências de passos incertos, mal pensados, geram marcas. No fim das contas, ninguém conhece ninguém. Mas, nós podemos - e devemos -, ainda que em constante modificação, tentar nos entender a ponto de não sermos apenas reflexos das mudanças que o tempo e as situações nos tornarão. De alguma coisa temos que ter o controle, que seja de nós mesmos. Quando não o temos, é impossível viver em paz. 

Matheus Araujo Dias 

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